terça-feira, 18 de agosto de 2009

A manhã do Sr. Figue

Por volta das seis da manhã na Rua Dos Cinamomos o silêncio repentinamente era quebrado pelo barulho alarmante de um despertador. Numa fração de segundos o som terminava, restando apenas os latidos de mais da metade dos cães da vizinhança. No número 6, de onde o barulho provinha, uma luz era acesa em um cômodo da casa. Há essa hora, nem mesmo o jornaleiro havia passado, o entregador de leite não havia chegado, nem mesmo os burocratas para seus postos tinham rumado; mas o Sr. Figue, morador do número seis, se colocava de pé.
Tinha ele o costuma de ao acordar dispensar alguns minutos com os olhos voltados para o teto. Dali imaginava como seria seu dia, os afazeres que teria com a casa, a comida que viria a ser preparada para a mãe, e quem sabe uma atividade diferente a qual poderia tirá-lo da monotonia. Fato é que antes mesmo de ter vivido o dia, Sr. Figue delineava como ele se processaria, ou seja, igual a todos os outros.
Então, inflava o peito para absorver toda a energia necessária para suas atividades e deixava a cama. Levantava, mas não sem antes espiar pela janela do quarto. Tinha a impressão de alguém estar sempre a vigiá-lo, e visto que não havia ninguém, dava uma olhadela de esguelha ao espelho e sorria. “Cada dia mais jovem” dizia o espelho e Sr. Figue respondia com um modesto sorriso.
Abria cautelosamente a porta do quarto, pois qualquer ruído que fosse poderia despertar sua mãe. Além da porta, o soalho de ripas de madeira também rangia o que obrigava Sr. Figue a andar sobre as pontas dos pés.
Era meticuloso e jamais se descuidava da hora. O pai falecera há alguns anos atrás, deixando um bonito relógio de bolso prateado feito de latão com bonitos desenhos em sua feitura. O relógio era levado pra cima e para baixo durante todo o dia.
Sr. Figue despertara as seis e apenas cinco minutos eram permitidos ficar a olhar para o teto; tinha que estar no banho até as seis e quinze sendo que o banho não podia ultrapassar cinco minutos com exceção de dez minutos aos fins de semana quando lavava o cabelo. Esse costume não perdera mesmo já estando careca.
E como se divertia Sr. Figue no banho! Talvez fosse essa a melhor hora de seu dia. Seria formidável se a água quente ao invadir e limpar o corpo fizesse o mesmo na mente desse homem e tirasse todas as suas preocupações banais.
Passados mentalmente os cinco minutos, ainda se detinha um tempo em frente ao espelho. A nuvem feita pelo vapor de água se interpunha entre eles. Na imagem, um corpo magro, de pele branca aparentemente jovial; no rosto, as enormes fendas nas bochechas podiam denunciar a idade, porém ele via uma pele branca, sem sinal algum. Sr. Figue não se via jovem e podia até lhe dar vinte anos sem poupar a modéstia. Então, colocava os óculos e a idade antes disfarçada pela miopia, era agora revelada. Contava já com quase quarenta anos e via-se claramente no rosto as marcas da idade. Todavia a natureza fora generosa com O Sr. Figue mantendo sua velhice aliada à beleza o que dava a ele um aspecto agradável.
Com o vapor a se dissipar o Sr. Figue se dava conta de mais uma vez o espelho ter a ele seduzido, e por respeito ao relógio deixava o banheiro.
Sr. Figue trabalhava como vendedor de leite ao próprio vendedor de leite. Não era ele quem distribuía às demais casas, mas sim outro homem de bairro vizinho. Já havia sido questionado até mesmo pelo próprio distribuidor os motivos pelos quais ele mesmo não fazia o serviço, o que lhe traria até mais renda para casa. E toda vez que esse assunto era pautado, Sr. Figue entrava em casa quieto com ímpetos de no outro dia tomar o cargo de fornecedor. Então passava a manhã inteira observando o homem a fazer as entregas e a conversar com cada pessoa de casa em casa. Via-o distribuir elogios, ser carinhoso com as crianças, viril com os demais homens e concluía que jamais chegaria aos pés do entregador. Muitas vezes ainda na manhã seguinte vestia uma calça branca que fora de seu falecido pai, um blusão de lã quadriculado e a boina de lã surrada; pegava umas duas leiteiras e comprometia-se de naquela manhã levar, nem que fosse de graça às duas velhas da frente o leite. No entanto, ele mal chegava ao portão, suas pernas travavam e suas mãos suadas quase deixavam escapar as leiteiras cheias. Subitamente voltava para casa, trancava a porta como se algum assassino ou assaltante do outro lado estivesse e se fechava em pensamentos. Dizia a si mesmo não cogitaria outra vez uma aventura dessas e que bom mesmo era a vida calma na qual estava e, além disso, que mal faria ao entregador de leite se quisesse tomar o posto deste! Na certa o pobre homem tinha mulher e filhos. “Ah, como fora ruim Figue, como o fora” – dizia sua mente.
Quantas e quantas vezes isso se repetira, sempre com a promessa de nunca mais voltar a acontecer. A tentativa de ser bem quisto além do portão o metia medo e dava ela como fracassada. Mas e estar dentro daquela casa velha e daquele mundo que vezes ou outra o entristecia, também não consistia numa tentativa malograda?

6 comentários:

  1. PO! muito bom. Cara. Muito bom mesmo. Parabéns. Obra prima. Bah. Cara se tu continuar escrevendo assim, vamos ter q achar mais uns contistas e publicar uma resvista, ou site de contos.. e zaz e zaz... masssa bruno!

    postei uma tirinha e um conto novo lá. depois olha. abraço cara.

    ResponderExcluir
  2. já me afeiçoei ao personagem!
    lindo, bruno. lindo!

    ResponderExcluir
  3. O legítimo perdedor. Do tipo que existia antes mesmo das alcunhas para perdedores serem inventadas.
    Pobre Sr. Figue.

    ResponderExcluir
  4. "A tentativa de ser bem quisto além do portão o metia medo e dava ela como fracassada. Mas e estar dentro daquela casa velha e daquele mundo que vezes ou outra o entristecia, também não consistia numa tentativa malograda?"

    Belíssimo!!! Sua narrativa possui um fluxo de dança- escolhe-se o par (o leitor) e sem enrolações maiores vai ao seu objetivo.Parabéns.

    ResponderExcluir
  5. Que Sr. mais querido, estou sentindo um carinho enorme pelo mesmo.
    Ele é tão simples não suas complexidades mentais, que gracinha.
    E quanta bondade <3

    ResponderExcluir
  6. Oi! Mas ah! Olha só quem eu encontrei!
    Muito lindo o conto!
    "E como se divertia Sr. Figue no banho!".
    Nessa parte me escapuliu uma risada. Pensei no ratinho do X tudo. ;P
    Lembrei muito o filme do Krzysztof Kieslowski, Não Amarás. x)
    Mande notícias!
    Um abraço da ágata.

    ResponderExcluir